Tradição Família e Apropriação

“Estar com mal de arquivo, pode significar outra coisa que não sofrer de um mal, de uma perturbação. É arder de paixão. É não ter sossego, é incessantemente, interminavelmente procurar o arquivo onde ele se esconde. É correr atrás dele ali onde, mesmo se há bastante, alguma coisa nele se anarquiva”.

Jacques Derrida

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Tradição, Família e Apropriação’

Artista plástico Renato Larini abre nova mostra com intervenções em fotos antigas
A mostra “Tradição, Família e Apropriação” fica em cartaz até dezembro no ateliê do artista e abre ao público dia 25 de agosto. O coquetel de abertura, somente para convidados, será no dia 22, terça-feira.

Exposição “Tradição, Família e Apropriação”, de Renato Larini

25 agosto / 15 de dezembro

Abertura ao público: 25 de agosto, 19h

Visitas: terça a quinta, das 14h- 18h

Sextas e sábados: 19h- 23h

Espaço Zebra

Rua Major Diogo, 237

3105-5171

www.espacozebra.com

O artista plástico Renato Larini abre no dia 22 de agosto a exposição individual “Tradição, Família e Apropriação” no seu ateliê, o Espaço Zebra.

A mostra conta com mais de 50 obras em colagens fotográficas, bordados e outras técnicas que usam como principal matéria-prima fotografias antigas de álbuns de famílias das décadas entre 1920 e 1960 coletadas no bairro do Bixiga. Nelas, o artista realiza intervenções: arranca ou inclui personagens, amputa e transplanta novos organismos, costura partes das suas vestimentas e feições, adiciona pedras nos caminhos, amarrações no olhar, cria roteiros, dessacraliza momentos religiosos e uniformes regimentais.

Larini se apropria desse arquivo pré-existente de imagens “descartadas” e dá um novo fôlego à fotografia impressa e revelada, escavando assim um novo discurso. Ao fazer isso, o artista propõe um resgate da fotografia contemporânea como instrumento de ressignificação, se reapropria esteticamente das fotografias e reterritorializa a identidade artística, no conceito de Deleuze.

Na mostra, o artista também subverte o nome da sociedade “Tradição, Família e Propriedade”, fundada durante a ditadura militar no Brasil e que propunha a manutenção do conservadorismo e das tradições católicas, para reconstruir as histórias dos personagens que, obrigados a seguir esses padrões, acabaram silenciados pelos tabus impostos historicamente.

“Não se ensina ninguém a ser autêntico, a ser único, pelo contrário: cobram uma conduta normativa, uma espécie de uniforme, uma postura, uma coreografia falsa do dia dia. E mexendo nas fotos antigas, sobre as camadas de nitrato de prata e celulose, se revela o que se conhece como ‘universo paralelo’: sobre o brilho congelado de olhos acinzentados e pupilas estáticas se esconde um grito de liberdade. É como se elas me falassem: ‘me tirem daqui’”, diz Larini.

O artista então recorta a noiva de uma foto solene de casamento e a recoloca ao lado de outra noiva. Em seu lugar, um noivo é colocado ao lado do esposo. Mulheres que tiveram sua liberdade de expressão tolhida têm as línguas e os olhos bordados em linha vermelha pelo artista, explicitando a violência a que foram submetidas na perda de sua voz e de sua visão de mundo. E assim segue, revelando, com suas intervenções nas imagens, o processo de mutilação social e estreitamento das visões de mundo e conta histórias silenciadas.

Pode-se dizer, nesse contexto, que Larini sofre do que Derrida chamou de “mal de arquivo”: uma busca incessante pelo “não dito” nesse arquivo de fotografias antigas, de memórias apagadas. O arquivo morto passa a ganhar nova vida na mão do artista.

Narrativas

Ao fazer essa reciclagem histórica, Larini transforma esses arquivos pessoais em espaços públicos, desmascarando a autoridade do discurso oficial e desconstruindo o discurso da fotografia como evidência do real. Ao contrário: ele forja uma nova árvore genealógica e propõe uma espécie de “mocumentary fotográfico”, que não tem intuito de revelar novas verdades, pelo contrário: desmascarar velhas mentiras. No entendimento do artista, o próprio ato de contar uma historia é sempre uma ficção – uma mentira de quem está no poder.

Como uma espécie de antropólogo e arqueólogo dessas imagens, ele coletou durante seis meses as fotografias em caçambas, feiras de antiguidades, antiquários e lixos da região do Bixiga para elaborar a exposição. Para produzir algumas das obras, Renato usou lentes para garantir a precisão dos recortes e das intervenções, seja para costurar pedaços de fotografias, retirar ou incluir personagens e objetos como vidros, garrafas e frascos de remédio. Cada obra, portanto, conta uma história, como um microuniverso.

“Sou um taxidermista sobre a pele e corpo da sociedade um cirurgião de anomalias deste velho e novo bestiário nosso de cada dia. Temos cursos, escolas e entidades que lecionam a falta do caráter, o desfiguramento, a descaracterização. Proponho a ruptura, o descolamento quero mostrar os novos orifícios, rotas de fuga, uma nova visão, a revisão dos dogmas e arquétipos de uma tradição opressora que talha a liberdade e transforma o indivíduo em objeto coletivo, em uma peça, um robô zumbi empregado, escravo das tradições e bons costumes, do politicamente correto ao sufocamento de sentimentos e prazeres individuais”, afirma.

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