Tradição, Família e Apropriação


Tradição, Família e Apropriação’

“Estar com mal de arquivo, pode significar outra coisa que não sofrer de um mal, de uma perturbação. É arder de paixão. É não ter sossego, é incessantemente, interminavelmente procurar o arquivo onde ele se esconde. É correr atrás dele ali onde, mesmo se há bastante, alguma coisa nele se anarquiva”.

Jacques Derrida

O artista plástico Renato Larini abre no dia 25 de agosto a exposição individual “Tradição, Família e Apropriação” no seu ateliê, o Espaço Zebra.

A mostra conta com mais de 50 obras em colagens fotográficas, bordados e outras técnicas que usam como principal matéria-prima fotografias antigas de álbuns de famílias das décadas entre 1920 e 1960 coletadas no bairro do Bixiga. Nelas, o artista realiza intervenções: arranca ou inclui personagens, amputa e transplanta novos organismos, costura partes das suas vestimentas e feições, adiciona pedras nos caminhos, amarrações no olhar, cria roteiros, dessacraliza momentos religiosos e uniformes regimentais.

Larini se apropria desse arquivo pré-existente de imagens “descartadas” e dá um novo fôlego à fotografia impressa e revelada, escavando assim um novo discurso. Ao fazer isso, o artista propõe um resgate da fotografia contemporânea como instrumento de ressignificação, se reapropria esteticamente das fotografias e reterritorializa a identidade artística, no conceito de Deleuze.

Na mostra, o artista também subverte o nome da sociedade “Tradição, Família e Propriedade”, fundada durante a ditadura militar no Brasil e que propunha a manutenção do conservadorismo e das tradições católicas, para reconstruir as histórias dos personagens que, obrigados a seguir esses padrões, acabaram silenciados pelos tabus impostos historicamente.

“Não se ensina ninguém a ser autêntico, a ser único, pelo contrário: cobram uma conduta normativa, uma espécie de uniforme, uma postura, uma coreografia falsa do dia dia. E mexendo nas fotos antigas, sobre as camadas de nitrato de prata e celulose, se revela o que se conhece como ‘universo paralelo’: sobre o brilho congelado de olhos acinzentados e pupilas estáticas se esconde um grito de liberdade. É como se elas me falassem: ‘me tirem daqui’”, diz Larini.

O artista então recorta a noiva de uma foto solene de casamento e a recoloca ao lado de outra noiva. Em seu lugar, um noivo é colocado ao lado do esposo. Mulheres que tiveram sua liberdade de expressão tolhida têm as línguas e os olhos bordados em linha vermelha pelo artista, explicitando a violência a que foram submetidas na perda de sua voz e de sua visão de mundo. E assim segue, revelando, com suas intervenções nas imagens, o processo de mutilação social e estreitamento das visões de mundo e conta histórias silenciadas.

Pode-se dizer, nesse contexto, que Larini sofre do que Derrida chamou de “mal de arquivo”: uma busca incessante pelo “não dito” nesse arquivo de fotografias antigas, de memórias apagadas. O arquivo morto passa a ganhar nova vida na mão do artista.

Narrativas

Ao fazer essa reciclagem histórica, Larini transforma esses arquivos pessoais em espaços públicos, desmascarando a autoridade do discurso oficial e desconstruindo o discurso da fotografia como evidência do real. Ao contrário: ele forja uma nova árvore genealógica e propõe uma espécie de “mocumentário fotográfico”, que não tem intuito de revelar novas verdades, pelo contrário: desmascarar velhas mentiras. No entendimento do artista, o próprio ato de contar uma historia é sempre uma ficção – uma mentira de quem está no poder.

Como uma espécie de antropólogo e arqueólogo dessas imagens, ele coletou durante seis meses as fotografias em caçambas, feiras de antiguidades, antiquários e lixos da região do Bixiga para elaborar a exposição. Para produzir algumas das obras, Renato usou lentes para garantir a precisão dos recortes e das intervenções, seja para costurar pedaços de fotografias, retirar ou incluir personagens e objetos como vidros, garrafas e frascos de remédio. Cada obra, portanto, conta uma história, como um microuniverso.

“Sou um taxidermista sobre a pele e corpo da sociedade um cirurgião de anomalias deste velho e novo bestiário nosso de cada dia. Temos cursos, escolas e entidades que lecionam a falta do caráter, o desfiguramento, a descaracterização. Proponho a ruptura, o descolamento quero mostrar os novos orifícios, rotas de fuga, uma nova visão, a revisão dos dogmas e arquétipos de uma tradição opressora que talha a liberdade e transforma o indivíduo em objeto coletivo, em uma peça, um robô zumbi empregado, escravo das tradições e bons costumes, do politicamente correto ao sufocamento de sentimentos e prazeres individuais”, afirma.

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Texto introdutório de Gisele Kato
Quantas verdades há em uma história? Ou o melhor seria perguntar: com quantas mentiras se faz uma história? Entrar no universo do artista Renato Larini é encarar as camadas escondidas das coisas, aquilo que a gente nem sempre quer ver. Desviamos os olhos num gesto meio automático de autoproteção. Aqui, no mundo do Renato, não dá para fazer isso. Ele abre a ferida, perfura o combinado, faz sangrar o segredo. Mas rasga as verdades devagarzinho, como se usasse um bisturi, libertando as mentiras aos poucos. Talvez seja o jeito que encontrou para que a gente aguente o tranco. Porque, com o artista, não tem meia palavra. O Renato escava as contradições e gruda as dissonâncias lado a lado. Vai até o fundo. E fica lá. Entre os nós atados e as linhas tortas. Entre as histórias abafadas. Mas chega confortável nesse espaço. Para ele a coisa toda só faz sentido assim, quando as máscaras saem de cena. É um lugar mais difícil de ocupar para quem – quase todos nós – cresce tentando se encaixar em um modelo social. A gente muda de assunto. A gente, uma hora ou outra, abaixa a cabeça. E sorri como pode para a foto.

Nas obras que tomam o mundo do Renato agora, vemos justamente essas fotos. O artista resgatou um conjunto de imagens tiradas entre as décadas de 1920 e 60, de famílias brasileiras de classe média, e percebeu como alguns códigos se repetiam, reforçando padrões, garantindo a imagem de bem estar para a posteridade. Muita gente vai se identificar com as cenas. Em certo sentido, estamos todos ali, com os noivos de pescoços tensos, cercados pelos pais. Somos nós também no retrato da moça de cabelos arrumados e brincos de pérola. E na pose do menino com a roupa nova, sentado, bem comportado. Estamos sempre lutando para atender expectativas. Ou ficamos de fora do álbum de fotografia da família. São registros de momentos felizes, talvez alguém diga de bate pronto. Mas o Renato passou o bisturi. E outras camadas de carne começaram a fermentar. Entre cortes, suturas e amarras, tão delicados quanto violentos, ele viu os sorrisos forçados. Quantas mentiras estariam ali?

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