Replicantes

Exposição Replicantes, de Renato Larini

 

 

 

Assim como uma guilhotina, nosso tempo esquarteja as horas e marca o ritmo de uma engrenagem movida por humanoides, replicantes, zumbis do formigueiro do consumismo. A cópia da cópia da cópia já não sabe mais nem a quem imita.

 

 

O artista plástico Renato Larini apresenta a nova série de obras intituladas Replicantes no ateliê aberto dele, o Espaço Zebra, no Bixiga. A mostra que reúne mais de 20 trabalhos, entre telas de grande formato, com suporte em madeira e papel, fica em cartaz até 15/05. O artista também lança uma nova série de móveis, com reproduções das obras em mesas e estantes.

 

Na nova exposição, Larini trabalha com o conceito de reprodução: tanto na forma como no conteúdo, com uma crítica do artista que questiona o desgaste da multiplicação e a falta de originalidade.

 

Daí o nome da exposição, Replicantes, que remete tanto à ideia de cópia, duplicata como a de contestação: a réplica. Ainda nesse sentido, a palavra traz referência da obra Blade Runner, de Philip K. Dick.

 

Os Replicantes retratados à exaustação e ao desgaste por Larini são cópias mal feitas de uma civilização que sacrifica a identidade e se cobre com a túnica da padronização. Larini não apaga as arestas em prol da uniformidade, pelo contrário: mostra que na coreografia da repetição há um ato de autodestruição.

 

“Eu busco no ruído dos escombros da sociedade de consumo, nas espessas camadas de campanhas publicitárias deixadas em muros, paredes e nas nossas cabeças retratar um ser humano que se acha parte de um grupo, mas perdeu a autenticidade, amedrontado pela solidão e o vazio de não pertencer, de não encontrar iguais”, diz o artista.

 

Nas obras, Larini amplia a fronteira das técnicas da serigrafia e do stencil para formar objetos compostos: a união duas figuras icônicas criam uma terceira, repleta de significados. Um corpo humano formado a partir de exaustivas impressões de revólveres é apenas uma das obras.

 

Larini parte de duas técnicas tradicionais para ele criou uma nova técnica, na qual as telas de serigrafia são exaustivamente impressas no suporte, servindo como pinceladas para formar objetos dos mais variados. A partir de um contorno (stencil), ele preenche os objetos com repetidas impressões de telas, formando uma nova textura.

 

A tela de serigrafia sozinha, portanto, perde o sentido: ela ajuda a compor, a preencher e criar os objetos. A união de duas figuras forma uma terceira, com um novo significado.

 

Com a experiência de trabalhar em madeira, Larini criou as telas a partir de compensados, o que possibilitou o trabalho em grande formato: algumas delas chegam a medir 2,20 x 1,50, como painéis. Dessa forma, ele traz parte do estética da street art para a galeria – com grandes painéis que lembram resquícios de cartazes gastos de publicidade, tentando reproduzir as camadas que ficam nos muros, as pinturas desgastadas das ruas.

 

 

 

Eduardo Logullo sobre Replicantes.

O mundo sempre esteve repleto de forças e formações introspectivas, que poderiam ser chamadas apenas de ideias. E as ideias querem decifrar o existente, a rigidez do símbolo, a intensidade do signo, a estrutura do espírito.
REPLICANTES traz o resultado de muitas representações mentais de RENATO LARINI, formadas a partir de movimentos, consistências, sobreposições, anulações, acréscimos, trocas, amputações e dados soltos que flutuam à nossa volta – embora poucos possam captar/apreender/ressignificar. A partir da ressignificação, é possível refletir de outros modos sobre as coisas, assinalando novos pontos de vista ou propondo outros fatores na dimensão daquilo que chamamos imaginação.
Neste agrupamento de trabalhos, a linguagem simbólica percorre camadas, arquétipos e visões delirantes concentradas em um eixo comum: a narrativa de esgotamentos. O cansaço dos ícones, o despedaçamento de inconscientes coletivos, a implosão dos poderes imagéticos, a redução, a confusão, a fusão. Há visão, há visões. Há avisos.
RENATO LARINI observa os mecanismos de máquinas obsoletas que formariam hoje uma “obsolescência programada”. É pau, é pedra, é alvo, é zebra, é coração, é cérebro. Do martelo ao revólver existem ajustes finos. Letras que pairam, alfabetos que tentam se expressar pela repetição: a prensa de Gutenberg pode ser labiríntica, mítica, mística: sim, sim, sim.

E de que material são feitos os trabalhos de REPLICANTES? De sonhos. Assim, os sonhos permitem tudo. E conduzem à réplica, no rumo da direção que se encaminha para o que desconhecemos. O zig-zag da contradição. O belo da evasão. O esplendor do esquecido. As camadas submersas do mistério, do existir, do ser, do deixar de ser, dos corpos invadidos, do disfarce, do intraduzível, da exclamação, da interrogação. Hey, você aí: que horas são?

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